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Blog de sambura2006
 


Um objetivo subjetivo

Raul Seixas já dizia que quando a gente tem um objetivo qualquer, normalmente se desilude ao alcançá-lo. "Pois agora eu me pergunto: e daí? Foi tão fácil conseguir e eu não posso ficar aqui parado". Grande Raul. De repente, a gente quer porque quer chegar aos 60 dias sem fumar, afinal, são dois meses em que a gente conseguiu ficar longe da nicotina, isso é uma vitória! Conversa... As coisas só são difíceis porque nós as tornamos assim. Fumar é assim mesmo.

 

Calma... não quero desanimar nem desiludir ninguém. Mas de repente, me veio a sensação esquisita de que não tenho que ficar especialmente alegre por ter deixado de fumar. Uai! Não fumar é que é o natural na vida de qualquer ser humano... Assim, estou alegre por quê, afinal de contas? Por ter deixado de fumar depois de fazer isso por 35 anos consecutivos? Besteira. Nunca deveria ter fumado, isso sim. Porém, como é característico de qualquer ser humano, estou me sentindo bem por ter finalmente acertado depois de anos de erros. 60 dias sem fumar. Dois meses. Tenho um novo objetivo na vida: alcançar os dois dígitos, que seja, 100 dias sem fumar. Vamos em frente, nem herói nem rato, gente.

 

Hoje quero falar um pouco sobre meu pai. Como? Fumava, claro. Como assim claro? Ora, no Mato Grosso, anos 30, 40 e que tais, natural que fumasse. Fumava, bebia, freqüentava a zona do meretrício e andava armado. Aquilo era o Mato Grosso, moçada!

 

Meu pai era peão de boiadeiro. Não desses peões de boutique que existem atualmente nas cercanias de Barretos, mas peão de verdade mesmo. Por cerca de vinte anos seguidos, cheirou bunda de vaca na antiga estrada boiadeira, que ia dos cafundós do pantanal até Andradina, em São Paulo, tocando boiadas de até 3000 cabeças a cada vez. Essas viagens duravam meses, e minha mãe ficava esse tempo todo esperando a volta do marido, na fazenda. Meu pai era "capataz" de comitiva, ou seja, a pessoa responsável pelo pessoal e por fazer chegar a boiada com o mínimo de perdas pelo caminho. Tinha que cuidar, ao mesmo tempo, das vacas e dos peões, e estes eram mais brutos que aquelas. Meu pai era capaz de laçar, derrubar, amarrar e capar um cavalo bravio em pleno campo, sozinho. Era capaz de laçar uma rês em disparada pelas patas dianteiras,  derrubando-a com um simples puxão, num estilo de laçada chamado "pialo", coisa bonita de se ver e que poucas pessoas conseguiam fazer, mesmo naquela época. Vida dura, sol a sol e chuva a chuva, comendo poeira, tomando chuva no lombo, dormindo em redes, dia inteiro em cima de um burro trotador, enfrentando feras, distâncias e ladrões de gado com a mesma desenvoltura. Agüentou vinte e tantos anos essa vida, até adoecer sem remissão. Nunca mais foi o mesmo. Pouco trabalhou depois, vítima das seqüelas dessa vida dura. Sujeito alegre, de uma inteligência aguda e mordaz, meu pai era charmoso e reunia gente onde quer que chegasse, tal a atração que exercia sobre as pessoas, mercê de sua personalidade única. Morreu quando completava apenas 52 anos. Era para mim um perfeito estranho e só fiquei sabendo de sua morte 42 dias depois do acontecido. Por quê estou falando de meu pai? Não sei, fiquei com saudade de repente. Que descanse em paz, esteja onde estiver, mesmo que seja no inferno, laçando diabos pelos chifres, sem tocar nas orelhas. A bênção, "seu" Heitor!

 

Um abraço a todos. Viviane, Cláudio, Vinho, Antonio, Freja, Artemus, Mônica, evoé, vocês, que foram meus anjos inspiradores. Não consigo encontrar palavras para descrever a força que vocês me deram até agora. Grato a todos.

beto.



Escrito por sambura2006 às 02h02
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