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Blog de sambura2006
 


O que é bom?

 

Nos vários comentários de BCTs e visitantes dos blogs, noto uma preocupação e uma angústia recorrente: como é difícil, angustiante, como é terrível deixar de fumar... como bate a fissura, como nos sentimos aliviados por termos passado mais um dia, uma semana, uma quinzena, um mês, semestre, ano! Contamos as horas, roendo as unhas de ansiedade em sermos reconhecidos como ex-fumantes. Saímos pelas ruas, de focinho no ar, farejando fumaças, espreitando fumantes ostensivos. Sofremos. Mas resistimos bravamente, heróis que somos, mártires de uma causa meio desconexa, estigmatizados, com o sangue da vontade de fumar correndo constantemente em nossas veias abertas da vontade, vontade de pitar... Deixamos de fumar, é verdade, no sacrifício, na raça, e estamos aqui, pagando pela suprema ousadia de deixar uma coisa tão, assim... tão, como direi, tão boa! Pronto! Eu disse! tão boa!

 

Tudo balela.

 

Uai. Por que diabos deixar de fumar é tão ruim assim? Estamos vendo tudo por uma ótica meio torta, que acaba nos fazendo ver como ruim o que é bom e bom o que é ruim. Falendo sério, que tragada compensa a sensação boa de respirar bem outra vez? Qual marca de cigarro pode nos fazer sentir o gosto da comida, cheirar uma flor, correr, cheirar bem, não precisar sair no meio de uma sessão de cinema para fumar, não ver as pessoas nos olhando atravessadas por estarmos empesteando o ambiente? Que nicotina compensa a pura sensação de poder ao dizermos que podemos mais que qualquer cigarro, qualquer indústria fumígera? Que vício pode ser melhor que mandar em nossas próprias vidas? O que há de ruim em acrescentar alguns anos em nosso tempo de vida? Em diminuir as chamces de contrair um câncer? Que há de tão ruim assim em diminuir pela metade, em apenas um ano, as chances de sofrer um infarto?

 

Gente, eu estou curtindo cada momento desse tempo em que estou deixando de fumar. Vem a fissura? Que venha! Dá vontade? Que dê! Quero mais é curtir cada coisa, rir sozinho a cada vez em que a fissura bate e eu venço. Em que a vontade vem e eu dou de ombros... rarará! EU POSSO MAIS! E NÃO VOU FUMAR!

 

É isso. Um abraço a todos. Nem herói nem rato. Gente.

 

beto



Escrito por sambura2006 às 20h22
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09 PESSOAS

 

A Monica do ACTbr me pergunta sobre nove pessoas minhas conhecidas aqui de Franca que estavam tentando parar de fumar. Será que elas conseguiram? Bom. Cara Monica, sinto dizer que nem todas conseguiram. Mas quatro delas estão firmes e parece que não tem mais volta. Duas fumam um cigarrinho um dia, dois no outro, param por três dias, fumam outro cigarrinho, param mais dois dias... aquele sofrimento que a gente já conhece. Três desistiram de vez. Pior. Uma dessas pessoas que desistiram, de apenas 20 anos, está fumando mais que antes de tentar parar. Assim, temos um placar mais ou menos assim: quatro vitórias, dois empates e três derrotas, uma delas especialmente dolorosa. Estamos vencendo, mas a margem é mínima.

 

De qualquer forma, atualmente há uma consciência de que o cigarro mata, e quem fuma quer largar (a grande maioria pelo menos), e quem não consegue largar sonha em conseguir. Largar de fumar está virando uma espécie de conquista de "status moral". Todos fumam meio escondido e todos os que conseguem largar anunciam aos quatro ventos e ficam sorrindo, recebendo satisfeitos as felicitações. Resumo da ópera: existe atualmente o sentimento social de que fumar é mau, largar de fumar é bom, nunca fumar é ótimo. Antes assim, melhor que antes, quando cigarro era sinônimo de glamour, e não fumar era estar "por fora".

 

Um abraço a todos.

 

beto.



Escrito por sambura2006 às 00h18
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satisfação e comoção (um post para o kare)

 

Hoje estou contente. Com perdão da má palavra (se é que essa palavra é má - palavras não são más nem boas, mas nossas intenções ao dize-las sim), mas hoje estou contente feito um fiodaputa que achou dinheiro na rua. Eu vi o passarinho verde. Eu sou o gato que pegou o canário. Estou contente pra dedéu. Estou pabo, como diria o Velho Lua. Danado de bão. Acontece que hoje completo 163 dias sem fumar. Mais de meio ano, cara! Aqui é aroeira!

 

Bão. Por que comemorar 163 dias sem fumar? Uai! nóis comemora cada dia, seu moço! Todos eles são importantes. Cada um deles. Fiquei comovido ao ver o Kare marcando dia após dia após dia, quarto dia, quinto dia, sexto dia... Fiquei com vontade de chorar ao lembrar a dureza das primeiras semanas, o primeiro mês... Depois ficou fácil. Kare, güenta firme, menino! Nós estamos aqui na retaguarda, torcendo firme por você, pode ter certeza!

 

Um abraço a todos. Nem herói nem rato. Gente.

 

beto



Escrito por sambura2006 às 01h48
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novos amigos

 

Adicionando hoje o endereço de dois novos amigos. Pedalero e karenin. Que sejam benvindos.



Escrito por sambura2006 às 01h32
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SETE VOLTAS, BATEIA, GURITA E BABILÔNIA

 

Trabalho com gente. Gente que quando entra em contato comigo, geralmente está numa pior. Afinal, sou oficial de justiça. Quase sempre não sou benvindo nas casas onde adentro. Não obstante, vamos levando a vida, com muito jeito. Com um jogo de cintura de fazer inveja à Ana Botafogo e ginga de fazer Garrincha dar duas voltas em cima das pernas tortas lá no céu dos futebolistas, acabo fazendo muito mais amigos que inimigos. Vamos nós.

 

Acontece que de uma forma ou de outra, acabo por ficar estressado. Afinal são já trinta anos desta vida. Antigamente, para rebater a ansiedade, eu fumava. Parei. Ponto final. Mas achei uma forma bem mais gostosa, saudável e recompensadora de dar um belo chute no traseiro da ansiedade. EU VOU PRA SERRA. Quem lê o que posto neste blog sabe que estou falando da Serra da Canastra. Pois então. Mas desta vez..

 

Desta vez eu fui para a Serra da Canastra, de moto (motos, a Ana em uma e eu em outra) e pelo caminho mais inusitado e bonito que me foi possível encontrar. Passamos por quatro serras antes de chegar à Canastra. Fomos até a Represa do Peixoto, aqui perto de Franca, 40 quilômetros. Daí, subimos a Serra das Sete Voltas, e em seguida até Delfinópolis. Daí, até o lugarejo conhecido como Olhos d'Água e em seguida para a Serra da Bateia, onde fica a Cachoeira da Bateinha, linda como ela só. Trata-se de uma cachoeira que vai caindo em degraus de cerca de cinco metros cada, por uma extensão de 500 metros aproximadamente. Coisa bonita que só os olhos da mulher amada olhando líquidos para a gente pode competir... em seguida, atravessamos a Serra da Gurita e da Babilônia inteiras, por cima do espigão. Vales profundos de um e de outro lado e lá em cima, solidão, boniteza e um ventinho forte e frio sacudindo aquele capim que só nasce lá em cima, fino e forte. A arnica selvagem cresce no meio dos pés de "canela de ema" uma plantinha peculiar de locais altos e pedregosos, aromatizando o ar. Dá vontade de gritar e pular lá de cima. No alto do espigão, ponto mais alto da Babilônia, a gente para as motos e olha pra tràs... o início e o final dos vales, um de cada lado, ao mesmo tempo, aos nossos pés... Indescritível. Beijar a mulher que a gente ama nesse lugar é uma coisa que funde corações, mentes e corpos. Bão demais!

 

Aqui entre nós... quem quer saber de fumar, no meio daquela beleza toda? 153 dias sem pitar, mano. Aqui é aroeira! Nem herói, nem rato. Gente que não fuma e sobe a serra...

 

um abraço a todos. beto.



Escrito por sambura2006 às 23h22
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0,41666666666666666 ano!

 

Notícias novas a gente sempre tem. Notícias velhas a gente sempre tem. Notícias, boatos, especulações, adivinhações e intrigas, a gente sempre tem, ouve e passa ou não pra frente. Mas boas notícias não é sempre que a gente tem. Pois eu tenho! Hoje, de repente (não mais que de repente, como diria o poetinha), este seu criado completa 0,416666666666666 ano ou 5 meses ou 150 dias ou 3.600 horas sem fumar. Minino, não é nada, não é nada, eu deixei de fumar 3.000 cigarros (também conhecidos, aqui em Franca, como chupeta do capeta - rima mas não tem melodia).

 

O fato é que estou muito satisfeito e queria comunicar a vocês. Gente, não morri, não sumi, não voltei a fumar. Aqui é aroeira! Nem herói, nem rato. Gente!



Escrito por sambura2006 às 23h07
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COMPLICAÇÕES

 

Vá me escutando... ontem mesmo eu estava falando sobre diferenças e sobre o sacrifício que fazemos para não decepcionar pessoas que na maioria das vezes não estão sequer um pouquinho preocupadas com o nosso bem estar. Cada um cuida de si mesmo. Acredite: dentro de você mesmo, você está sozinho, nasceu sozinho, vive sozinho e morrerá sozinho, aí dentro... portanto, preocupe-se em satisfazer em primeiro lugar a você mesmo, o resto é apenas um detalhe. Menor.

 

Acontece que a gente tem a estranha mania de complicar as coisas. Este ano, tive vontade de comprar um carro zero. Sabe como é que é, aquelas propagandas, você fazendo sucesso, a mulherada te olhando, a sensação boa de dirigir um carro zero, o cheiro de carro novo, o status, a potência, quem tem um carro desses fez por merecer, etc e cousa e a asa da maripousa... CONVERSA! CONVERSA FIADA! Meninos e meninas do meu Brasil infantil, pensem bem: para que serve um carro? Uai! um carro só serve para levar a gente de um ponto "A" para um ponto "B", e para mais nada! Caso eu compre um carro zero, vou gastar um absurdo, terei que pagar impostos ainda mais absurdos e o valor do seguro beira as raias da loucura... Vou é pegar esse dinheiro e comprar umas terrinhas lá na Serra da Canastra, de preferência um lugar onde se possa fazer uma casinha branca no pé da serra pra eu viver com meu amor... Onde haja água cantando e flores cheirando bem, onde o "corguinho" desça mumumumurmurando entre pedras coloridas, e haja amanhecendo e anoitecendo e seja tudo bonito, onde eu possa deitar no pé do fogão, saciado e aconchegado, eu e minha neguinha... Fala a verdade: é ou não é aproveitar melhor essa grana?

 

Vá me escutando... outro dia desses, liguei a televisão para ver algumas notícias, que pelamordedeus, não quero que o mundo se acabe e eu sem saber de nada... Pois noticiava-se uma tal de fashion (féchi um - qui será qui é isso, minha santa piriquita do zóio verde?) week (uíque, ou algo assim, parece que devi di sê uma bibida estrangeira)... Rapaz... se eu te contar tenho certeza de que você não vai acreditar. Apareceram umas moças magras feita a moléstia, que devem passar fome feito senegalês na sêca, com uma cara de nojo de nóis que nem te conto. Mas o pior de tudo é que elas vestiam umas roupas que se passarem na frente do hospital psico aqui de Franca, com certeza serão pegas a laço e internadas na ala das doentes mentais incuráveis... Pois então. Mostrei pra minha neguinha e ela me esclareceu que aquilo é a moda desse ano. Todas as mulheres terão que usar aquilo, ou pelo menos uns trapinhos inspirados naquelas roupas. Ante a minha expressão de incredulidade, a Aninha esclareceu que isso é a moda. Não livra ninguém, toda a mulherada tem que usar, sob pena de passar por alienada. Uai! Então a gente não pode usar a roupa que quiser? Pois parece que não. Deve ser a lei. Se não usar vai presa. Fala a verdade: tá ou não tá todo mundo louco? Ou isso, ou vocês hão de concordar que a gente complica a própria vida por causa de besteiras. Vê lá se vou usar um determinado tipo de roupa só porque um estilista suspeitíssimo acha que a "tendência" deste ano é assim ou assado. Vê lá.

 

Agora, sejam sinceros: quantos fumantes vocês acham que começaram a fumar só porque "todo mundo fuma", "para não ficar por fora", "porque a fulana ou o fulano fuma", "porque tá na moda", "porque a artista tal ou qual fuma", "porque eu quero fazer parte do mundo de Marlboro" e etc e tal. Quantos? Somos complicadores de nossa própria vida, você vá me escutando...

 

Sabe que mais? Amanhã eu continuo.

 

Beto. .........................................................   Um pedacinho verde claro, só para não ficar muito chato.



Escrito por sambura2006 às 01h17
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DIFERENÇAS

Sempre tive problemas com pessoas e com as coisas que as pessoas fazem, com coisas que os outros esperam de nós. Durante quase toda a minha vida, fui castigado de uma forma ou de outra por ser diferente. Afinal, eu fui um garoto que gostava de brincar sozinho, que ia pescar no Rio Amambaí, no meio do mato, completamente só. Meus brinquedos prediletos eram observar formigas, alimentar pássaros no quintal e sonhar. Quando adolescente, eu lia. Li tudo o que me caiu nas mãos e tudo o que pude emprestar, tomar ou roubar. Com doze anos de idade, li a bíblia (sagrada?) do gênese ao apocalipse, três vezes seguidas. Li enciclopédias, livros de aventuras, biografias, bang-bang de montão, e nem consigo falar sobre a quantidade de gibis que devorei. Em certa ocasião, cheguei a possuir 360 gibis, todos comprados com o suor do meu próprio rosto de moleque, pois comecei a trabalhar com oito anos de idade, vendendo bananas na rua. em uma cesta, em Paranavaí-PR. Eu era um garoto tão esquisito que levava um livro para ler durante a sessão de cinema, no intervalo. Eu não queria perder tempo. Tempo houve em que tornei obcecado por ficção científica. Fã alucinado de Isaac Asimov, capaz de me pegar no tapa com quem preferia o Bradbury, por exemplo. Li a "Fundação" até quase decorar aquilo (risos).

 

Mas o que eu queria dizer mesmo é que não temos que fazer o que todos fazem, e nem  mesmo que tentar estar à altura da expectativa de quem quer que seja. Passamos a nossa vida inteira preocupados com inutilidades, sofremos por causa de futilidades, nos preocupamos com coisas que nada valem, se examinadas de perto e com atenção. Por que diabos temos que ser aquilo que esperam de nós? Eu não quero mais nada disso. Quero mesmo é poder pegar meu violão e cantar em um dia qualquer da semana, sem sentir remorso nem culpa... Eu não sou escravo! Nem do trabalho, nem da sociedade, nem da tradição, nem das expectativas de parentes, sobrinho, filhos, vizinhos, chefes e o escambau... Como diria Elomar, cansei de ser boi manso, quero mais é arrombar a cerca, sair pelo campo sem fronteiras, ter espaço para viver.

 

É dessa maneira que estou, bem devagar, mas lentamente mesmo, reaprendendo a ver a vida. Quando penso nas inúmeras coisas que fiz, quando queria fazer outras, quando penso nas tantas vezes em que fiquei aborrecido para não aborrecer filhos, chefes, vizinhos, o diabo a quatro, fico com ódio de mim mesmo. Quantas vezes calei o que devia ser dito, quantas disse o que não queria dizer, quantas? Quantas horas trabalhei quando deveria estar escrevendo? Quantos dias sacrifiquei para pessoas que não merecem um minuto sequer, quando deveria estar pescando, ou olhando flores, ou preguiçando, nada mais que isso mesmo...? Quantas coisas comprei que não queria, comi que não gostava, usei que não devia, convivi que não amava, suportei que odiava, esperei que não podia... quantas? Tudo isso para que? Para não ofender seja lá quem for, para não aborrecer chatos de galocha, para não magoar filhos-de-uma-égua...

 

Sabem que mais? Amanhã eu continuo.

 

A propósito: completei hoje 105 dias sem fumar. Por que não comemorei nem escrevi nada quando completei 100 dias? Sei lá. Mas escrevo isso (105, 105, 105, 105) nesse azul alegre. É bom estar há 105 dias sem fumar. Espero chegar logo aos 138. Porque cento e trinta e oito? Também não sei. Mas será ainda melhor que 105, com certeza.

 

beto



Escrito por sambura2006 às 02h28
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POST PRA VI

miniaturezas

 

Amo as coisas miúdas da natureza, em geral despercebidas ante a loucura da vida desesperada que levamos. A gota de orvalho ao sol, brilhando qual diamante, mas mais pura, alva e simplesmente efêmera. A pequena flor amarela brotando entre as pedras do cerrado, força e beleza ao mesmo tempo, numa vida tão pequena... As libélulas de olhos azuis e asas transparentes, que pairam sobre as águas, guerreiras, ferozes, vorazes e belas como são as mulheres em geral. A abelha jataí, listrada de amarelo e negro, dócil e inofensiva em seu labor. volitando entre flores, fabricando mel em pequenas favos negros.

 

Amo as miúdas coisas da floresta, eterna festa de vida, tenaz, persistente e alegre, enroscada entre caules e cipós, oculta entre folhas e raízes. Um pequeno casulo de mariposa, estriado em dourado, brilhando como ouro velho e polido. O sol, o sol, o sol sobre uma folha de palmeira jovem, lançando suave luz verde no chão da mata. Pequenina orquídea independente e forte, que pendura uma flor branca sobre o vazio. As formigas ruivas da embaúba, tranqüilas, mas ferozes ao defender sua casa, fornecida pela árvore agradecida pela bênção da simbiose... As formigas cabeçudas em seu eterno desfile, corpo sobre corpo sobre corpo sobre corpo, marchando unidos em fila indiana, matemática e precisa, trabalhando com bandeiras verdes sobre as antenas.

 

Amo as pequenas coisas pela mata, desconhecidas, ignoradas na sua beleza rude e simples. A grota de pedra escondida pelo verde, com fio d'água de mina brotando da pedra, formando pequena lagoa de água límpida, onde nadam lambaris nervosos, açoites de prata faiscando entre projetos de sapos e rãs. Pirilampos pela noite, cobrindo os morros como móveis estrelas, amantes de luz intermitente-tente-tente e paixão constante-tante-tante, preparando uma nova geração de brilhos fugazes. Amo os amarelos, vermelhos, roxos e brancos, laranjas, marrons, ferrugens e lilases, das flores que ninguém vê. Os verdes das folhas, com todos os matizes da esperança, todas as formas da geometria, todas as texturas, todas as ternuras ao toque. As formas dos cipós, emaranhados em impossíveis nós, rugosos ou lisos, pendurados pelo espaço, subindo, pedaço a pedaço, na ânsia pela vida.

 

Amo as miúdas coisas do mato, as variadas formas da natureza, as explosões de belo que resta para quem sabe ver a beleza, onde a beleza está.

 

beto - originalmente escrito em abril de 2003, e de volta na lembrança pelo post da viviane, que também sabe ver a beleza. Ai, que saudade do meu ranchinho! Amanhã estarei completando 90 dias sem fumar. Nem herói, nem rato. Gente.



Escrito por sambura2006 às 12h46
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PERGUNTAS E RESPOSTAS

 

Fiquei comovido com os comentários sobre a vida de meu pai. Não sei se morreu por conseqüência de ter fumado desde a mais tenra idade, mas como morreu de infarto, aos 52 anos e fumava desde sempre, provavelmente isso tenha realmente causado ou acelerado sua morte. Porém o velho teve uma vida sofrida e outras causas podem ter colaborado para sua morte tão precoce. Fumar era normal naquela época. Era natural que qualquer homem que se prezasse tomasse certas atitudes... beber, fumar, orgiar (existe esse verbo? Pode até não existir, mas era muito praticado pelo meu pai...) jogar, pelear. O velho viveu numa época e num sistema de vida que é para mim simplesmente incompreensível. Não se preocupava com quase nada, pouca coisa o sensibilizava, mas respondia prontamente frente a qualquer dificuldade. Era valente como pode ser qualquer homem que nada tem a perder, a não uma suposta "honra" de macho matogrossense. Em compensação, nunca teve estresse, jamais foi assolado por problemas mentais e depressão para ele era apenas uma vala no chão (risos). Viveu e morreu na fronteira do Mato Grosso com o Paraguay e falava três línguas: português, castelhano e guarany. Como eu já disse antes, era e continua sendo para mim um perfeito estranho. Mas deixou saudades, o velho Heitor.

 

Quanto aos livros que eu e a Aninha escrevemos a quatro mãos, tratam-se de livros didáticos (Curso completo para o concurso de oficial de justiça // Curso para o concurso de escrevente técnico - ambos para o Tribunal de Justiça de São Paulo) e foram lançados pela Editora Definir em 1999  e até 2001. Com a quebra da Editora, acabou-se o que era doce. Credo! Tomara que essa editora não tenha quebrado por causa desses livros (risos). Não acredito que ainda possam ser encontrados para compra, mesmo porque atualmente estariam desatualizados.

 

Quanto aos 60 dias sem fumar, já são 70. Se Deus quiser (e Ele quer) logo, logo estaremos comemorando 100 dias, ou três dígitos. Já é gostoso pra caramba estar há 10 (dez) semanas sem fumar. Estou ficando ambicioso, conto agora por semanas e meses (já são dois). Quero mesmo é começar a contar por anos...

 

Um abraço a todos. beto.

PS: esqueci o que ia escrever aqui.

PS II: lembrei! era para não esquecer de colocar algo interessante no PS.

PS III: Só não lembro o que era.

PS IV: esquece.



Escrito por sambura2006 às 22h39
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Um objetivo subjetivo

Raul Seixas já dizia que quando a gente tem um objetivo qualquer, normalmente se desilude ao alcançá-lo. "Pois agora eu me pergunto: e daí? Foi tão fácil conseguir e eu não posso ficar aqui parado". Grande Raul. De repente, a gente quer porque quer chegar aos 60 dias sem fumar, afinal, são dois meses em que a gente conseguiu ficar longe da nicotina, isso é uma vitória! Conversa... As coisas só são difíceis porque nós as tornamos assim. Fumar é assim mesmo.

 

Calma... não quero desanimar nem desiludir ninguém. Mas de repente, me veio a sensação esquisita de que não tenho que ficar especialmente alegre por ter deixado de fumar. Uai! Não fumar é que é o natural na vida de qualquer ser humano... Assim, estou alegre por quê, afinal de contas? Por ter deixado de fumar depois de fazer isso por 35 anos consecutivos? Besteira. Nunca deveria ter fumado, isso sim. Porém, como é característico de qualquer ser humano, estou me sentindo bem por ter finalmente acertado depois de anos de erros. 60 dias sem fumar. Dois meses. Tenho um novo objetivo na vida: alcançar os dois dígitos, que seja, 100 dias sem fumar. Vamos em frente, nem herói nem rato, gente.

 

Hoje quero falar um pouco sobre meu pai. Como? Fumava, claro. Como assim claro? Ora, no Mato Grosso, anos 30, 40 e que tais, natural que fumasse. Fumava, bebia, freqüentava a zona do meretrício e andava armado. Aquilo era o Mato Grosso, moçada!

 

Meu pai era peão de boiadeiro. Não desses peões de boutique que existem atualmente nas cercanias de Barretos, mas peão de verdade mesmo. Por cerca de vinte anos seguidos, cheirou bunda de vaca na antiga estrada boiadeira, que ia dos cafundós do pantanal até Andradina, em São Paulo, tocando boiadas de até 3000 cabeças a cada vez. Essas viagens duravam meses, e minha mãe ficava esse tempo todo esperando a volta do marido, na fazenda. Meu pai era "capataz" de comitiva, ou seja, a pessoa responsável pelo pessoal e por fazer chegar a boiada com o mínimo de perdas pelo caminho. Tinha que cuidar, ao mesmo tempo, das vacas e dos peões, e estes eram mais brutos que aquelas. Meu pai era capaz de laçar, derrubar, amarrar e capar um cavalo bravio em pleno campo, sozinho. Era capaz de laçar uma rês em disparada pelas patas dianteiras,  derrubando-a com um simples puxão, num estilo de laçada chamado "pialo", coisa bonita de se ver e que poucas pessoas conseguiam fazer, mesmo naquela época. Vida dura, sol a sol e chuva a chuva, comendo poeira, tomando chuva no lombo, dormindo em redes, dia inteiro em cima de um burro trotador, enfrentando feras, distâncias e ladrões de gado com a mesma desenvoltura. Agüentou vinte e tantos anos essa vida, até adoecer sem remissão. Nunca mais foi o mesmo. Pouco trabalhou depois, vítima das seqüelas dessa vida dura. Sujeito alegre, de uma inteligência aguda e mordaz, meu pai era charmoso e reunia gente onde quer que chegasse, tal a atração que exercia sobre as pessoas, mercê de sua personalidade única. Morreu quando completava apenas 52 anos. Era para mim um perfeito estranho e só fiquei sabendo de sua morte 42 dias depois do acontecido. Por quê estou falando de meu pai? Não sei, fiquei com saudade de repente. Que descanse em paz, esteja onde estiver, mesmo que seja no inferno, laçando diabos pelos chifres, sem tocar nas orelhas. A bênção, "seu" Heitor!

 

Um abraço a todos. Viviane, Cláudio, Vinho, Antonio, Freja, Artemus, Mônica, evoé, vocês, que foram meus anjos inspiradores. Não consigo encontrar palavras para descrever a força que vocês me deram até agora. Grato a todos.

beto.



Escrito por sambura2006 às 02h02
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De letra

De vez em quando a gente acerta uma coisa na vida. Tira "de letra", gíria que os boleiros entendem. Parar de fumar foi uma dessas ocasiões em minha existência. Lógico que o simples fato de ter largado a nicotina não é o supra-sumo, o nirvana, a essência da felicidade, beleza ou perfeição em minha vida, mas que foi um dos acertos, isso foi.

Mas como eu dizia, de vez em quando a gente acerta uma. Escrever um livro foi uma delas. Escrever em livro a quatro mãos com a Ana Maria foi outra. A Ana Maria em minha vida foi outra coisa especial, talvez a melhor delas. Encontrar o Rio Samburá e ter um lugarzinho em suas margens foi outra. Primeiro filho, primeira namorada, primeira poesia (credo! nem acredito que escrevi mesmo aquilo... risos), de vez em quando a gente acerta em uma coisa, faz uma coisa especial, coloca mais cor na vida. Tocar violão, descobrir que eu e minha neguinha podemos cantar juntos, harmonizar as vozes... Ler um bom livro, o primeiro livro da Pearl Buck que li, descobrir Elomar Figueira de Melo e suas canções da beira do "Ri" Gavião... de vez em quando a gente descobre uma coisa boa. Pescar pela primeira vez, ver a Ana Maria pegar a primeira piapara no Rio Samburá, a primeira garça real que vi na vida... de vez em quando a gente vê uma coisa linda, que transforma a gente, transporta a gente para outro nível, nos coloca um pouco fora deste mundo moderno no pior sentido, agitado, ansioso, louco e letal em que vivemos... Poder deitar numa rede e deixar o tempo passar, de vez em quando, chamar os miquinhos pra comer na mão da gente, subir uma grota cheia de orquídeas e árvores centenárias, ficar vendo a Ana Maria lendo na varanda do rancho... de vez em quando a gente faz a coisa certa e fica em paz com tudo.

Pois uma das coisas certas que fiz foi deixar de fumar. Mas o Vinho tem razão. Tenho que ter paciência e compreensão com quem fuma. Afinal, fumei por 35 anos. Incomodei muita gente, fiz muitas pessoas fumarem junto comigo, embora não quisessem, preocupei demais as pessoas que me querem bem... valeu o puxão de orelhas, Vinho. Vamos em frente, mas olhando para trás, sempre, que é para não esquecer e não errar de novo.

 

Um abraço. beto.



Escrito por sambura2006 às 23h39
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50 dias

"Tava" passando aí pela rua e resolvi entrar aqui um pouco. Acontece que daqui a alguns minutos estarei completando 50 dias sem fumar. Sei que esse negócio de datas não tem muito a ver mas estou bem orgulhoso de mim mesmo por ter conseguido essa marca. Agora tenho outro objetivo: 60 dias, ou dois meses sem colocar um cigarrinho na boca, "nem de brincadeira" como diria o Drauzio Varella.

 

Hoje em dia, já me considero um "veterano" na luta contra o cigarro (risos). Fico olhando o blog, e lendo o que eu mesmo escrevi nos primeiros dias, primeira semana, primeira quinzena... Daqui a alguns meses estarei exibindo orgulhoso as cicatrizes da batalha e contando para meus filhos como era difícil enfrentar as crises de abstinência, a irritação, a ansiedade, a vontade louca de acender um cigarrinho, a fissura, as dores de cabeça, a raiva repentina, as crises de consciência, quando a gente tem vontade de chutar tudo e voltar a fumar... Pois é. Mas estarei contando também das vantagens de largar o vício. A respiração que melhora, poder cantar novamente, os dentes e os dedos que voltam à cor natural, a voz outra vez normal e cristalina, a energia que dobra, a libido que sobe, a auto-estima vai às nuvens, a satisfação de ter vencido... Pois é. Sou um veterano... Meninos, eu vi, eu senti, eu venci... (risos)

 

Passar pela rua, ver um fumante dirigindo com um cigarro nos lábios... surpreender alguém tendo uma crise repentina de tosse... Sentir o cheiro miserável da fumaça... Olhar calmamente como alguém aspira a fumaça, o brilho da chama... intuir o pulmão desse coitado se enchendo de uma mistura tóxica de milhares de substâncias nocivas... Vício desgraçado. Pensar que quando fumava achava tudo isso normal. Seres humanos são estranhos. Seres humanos são idiotas. Somos humanos. Mas quero crer que estamos um grauzinho acima de fumantes. Pelo menos, nós acabamos por ver a realidade do cigarro, e optamos por deixá-lo de lado. Somos humanos, mas não somos tão idiotas assim.

 

Abraços a todos. Vamos em frente.

 

beto



Escrito por sambura2006 às 23h49
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NOTÍCIA INTERESSANTE

Deu no jornal: coloquei a matéria na íntegra porque achei muito interessante. Tomara que dê certo, embora eu duvide, tendo em vista o interesse dos governos no imposto da nicotina e na força do lobby das indústrias.

 

Os maços de cigarros estão na mira da Organização Mundial da Saúde. Especialistas recrutados para preparar a 3ª Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro do Tabaco sugeriram a adoção de um maço branco, que deveria ser usado por todas as marcas de cigarro. "Documentos da indústria mostram que a embalagem é um ponto importantíssimo na estratégia de venda", afirma a secretária-executiva da Comissão Interministerial para Implementação da Convenção-Quadro, Tânia Cavalcante. Ela conta haver uma série de estudos da indústria para, com a ajuda da embalagem, alcançar consumidores jovens e tornar o produto atraente para não-fumantes.

Na mais recente reunião preparatória da COP, técnicos estudaram uma série de medidas para rotulagem dos maços. A Convenção-Quadro, acordo internacional de saúde com medidas para prevenir e reduzir o tabagismo no mundo, recomenda que países determinem a inscrição de frases de advertência sobre os riscos do cigarro. Para assegurar que tal medida seja eficaz, técnicos sugerem a adoção de um padrão único, com o tamanho de letras e onde a inscrição deve ser feita. "Quanto menos atrativo o maço, melhor", afirma Tânia.

É o caso, diz, de uma das marcas mais conhecidas de cigarro: o aviso era estampado na lateral da embalagem, com letras pouco chamativas. "Essa estratégia foi considerada essencial para que a marca mantivesse um bom desempenho de vendas."

A embalagem branca impediria certos artifícios, como uso de cores que remetem a doces. Tânia, que também trabalha no Instituto Nacional do Câncer, observa que as mudanças de embalagens serão ainda discutidas entre governos e avaliadas durante a COP, marcada para o segundo semestre. "Claro que haverá grande resistência da indústria, que certamente trará argumentos sobre o direito autoral. Mas o fato é que esse produto mata 50% de seus consumidores e, portanto, têm de receber um tratamento diferencial." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

 

 



Escrito por sambura2006 às 11h04
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Só alguma consideração. Não considero o cigarro meu inimigo. O inimigo sou eu. Têm razão os fumantes quando dizem que fuma quem quer e que ninguém nos obriga a ser fumante. Acontece que nicotina vicia e deixar um vício é sempre difícil, seja ele qual for. Sabemos que existem pessoas viciadas em cocaína, em maconha, em sexo, em álcool, em comida, em fast food, em jogo, etc etc etc… Qual desses vícios é fácil de ser singelamente deixado de lado? Porém o vício só é abandonado quando o viciado VENCE A SI MESMO.

Não importa se o corpo exige, se o cérebro comanda, se a abstinência encara, se a fissura atropela, se o hábito ordena. Quem quer deixar de fumar tem que fazer exatamente isso: DEIXAR DE FUMAR, e encarar as conseqüências. Que venham os problemas! Não se pode ter medo de problemas, ou não se deixará de fumar. Não se pode ter medo de nosso medo, ele tem que ser olhado de frente, analisado e resolvido. Não se pode ter medo de sofrer, ou não deixaremos de fumar. O sofrimento de agora reverterá em felicidade futura. Ou isso ou um sofrimento ainda maior no futuro.

Seremos punidos sim, com as fissuras, com as crises, com a irritação, com a insônia, com tudo o que a abstinência faz, mas se a abstinência separa, a saúde une. A crise pode vir e agarrar, que a satisfação de poder fazer o que se quer fazer virá e nos soltará. No final, poderemos dizer: olha eu aí, de novo, novo em folha, respirando, cheirando, provando, andando, nadando, respirando, respirando, RESPIRANDO!

A luta é contra o cigarro? É sim, mas pode crer, é muito mais contra a gente mesmo. Isso é mau, porque o inimigo é pelo menos tão forte quanto nós, mas é bom porque sabemos que só depende de nós mesmos para que a vitória seja nossa. Trinque os dentes, encare o medo, seja você mesmo e abandone o vício. Você pode.

beto.

 

(postado no blog da ACTbr)



Escrito por sambura2006 às 07h38
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